segunda-feira, 30 de março de 2015

ONIRA, A NINFA DAS ÁGUAS DOCES



(OYÁ ONIRA: a Oyá "DOCE")
Conta-se uma lenda (itan) que existia nas terras de Irá, uma linda moça chamada Onira (Senhora de Irá), ela sempre comandava seu povo com sabedoria. Mas, ela tinha um grande problema: adorava lutar e se sentia bem em matar seus inimigos. Onira era descontrolada quando tinha em punho sua adaga de guerra. Certo dia enlouqueceu de vez, chegou a um vilarejo e matou todos que alí encontrou. Os sábios da cidade de Irá resolveram procurar Oxalá para que ele na condição de Rei, mandasse que Onira parasse de matar.
Onira recebeu o recado q Oxalá queria vê-la e foi até Ilê Ifé (palácio de Oxalá). Chegando lá, Oxalá assustou-se, pois as roupas de Onira eram vermelhas, de tanto sangue de suas vítimas. Ela ajoelhou-se e perguntou o que o grande Rei queria. Oxalá mandou que trouxessem uma grande quantidade de Efun (seu pó branco sagrado). Pegou seu pó e jogou sobre Onira. Na mesma hora suas vestes de cor vermelha tornaram-se rosa, por causa da mistura do pó branco com o sangue. Então, Oxalá ordenou que Onira não mataria mais ninguém, e que ela jamais vestiria vermelho em publico, e que rosa seria sua cor, e como ela era uma moça tão quente, que fosse morar nas águas junto com Oxum.
E lhe disse:
Onira minha filha, és uma moça tão bela, tão doce, por que matas?
Sinto-me bem quando tiro a vida de alguém, mas sei que isso não é certo.
Foi então que Oxalá teve uma ideia.
Já que você gosta de lidar com a vida e com a morte, você terá junto com Oyá o domínio sobre os Eguns. Não tirarás mais a vida de ninguém, apenas irá conduzir os que já se foram.
Está certo Oxalá, seu desejo será realizado mas não tire de mim minha adaga.
Oxalá disse: Pode deixar, mas agora vá morar na cachoeira com Oxum.
Onira obedeceu a Oxalá, foi morar na cachoeira. Chegando lá Oxum ria e debochava dela, mas resolveu ser sua amiga. Porém, Onira muito mal humorada, não queria papo. Até que um dia Onira adormeceu sobre uma pedra, olhando Oxum banhar-se e as águas da cachoeira subiram e Onira estava morrendo afogada, Oxum vendo o que estava acontecendo, mergulhou e foi salva-la, chegando lá Onira estava quase morta e Oxum resolveu fazer um feitiço e na mesma hora Onira reviveu e transformou-se em uma espécie de lava que correu rio a fora. Onira transformou-se em um rio de fogo. Oxum pensou que Onira havia morrido, chorou por horas, sem saber o que diria a Oxalá, já que ele a incumbiu de tomar conta da moça atrevida. Foi então que surgiu uma borboleta linda, de cor salmão com tons alaranjados, que voava ao redor de Oxum. Ela tentou pegar a borboleta que voou para dentro da floresta, Oxum seguiu a borboleta que parou em frente a uma árvore e tomou a forma da linda Onira. Oxum não acreditava no que via, e Onira lhe disse:
Por que choravas minha amiga, estou aqui viva, e graças a você!
Graças a mim porquê Onira? Eu não fiz nada.
Na hora que eu estava morrendo você fez um feitiço e dividiu comigo todo seu encanto, agora sou uma NINFA(mulher encantada), assim como você ,tenho poderes de transformação. Posso ser um RIO de FOGO nos meus momentos de ira, posso ser um BÚFALO quando eu quiser ficar sozinha, e me transformar na mais bela BORBOLETA quando estiver feliz. E Onira foi até Oxalá lhe contar o que havia acontecido, ele ficou feliz mas sabia que toda esta mudança jamais acalmaria Onira, e que por dentro ela ainda seria aquela guerreira incansável. Mandou então que ela fosse morar com Oyá e aprender a dominar os Eguns.
Depois, Onira mudou-se e foi viver com Oxosse e como ele foi criada por caçadores, sabia caçar como ninguém. Onira morou com quase todos os Orixás, aprendendo tudo que eles sabiam fazer.
Quando o culto aos Orixás veio para o Brasil, confundiram Onira com Oyá e por isso então ela passou a ser cultuada no Panteão das Oyás, tornando-se uma qualidade de Oyá. Mas sabemos que Onira é um orixá assim como todos os outros. Ela gosta das cores branco, dourado, rosa, salmão, assim como a determinação de Oxalá. Muitos acreditam que Onira por morar nas águas é um orixá calmo, mas este pequeno Itan nos mostra que Onira é um Orixá muito “quente”, uma moça guerreira e determinada.
Suas filhas são faladeiras, escandalosas, briguentas, metidas, arrogantes, divertidas, mal-humoradas, tem toda a doçura de Oxum e são atrevidas como Oyá.
Onira = a Senhora de Irá (terra de Oyá)
Ela é impulsiva e suas filhas carregam suas características
São capazes em momentos de comoção doar sem pensar, tudo o que tem, mas se a pessoa fizer uso indevido daquilo que ela doou, ela vai pra cima, sem mais delongas.
Se ela for traída então piorou, são capazes de tudo na hora de raiva; mas acabando esses momentos de impulsividade momentânea são pessoas maravilhosas, prestativas.
Possuem um pouco de dificuldade em guardar segredos, mas, em determinadas ocasiões, sabem manter a regra.
Onira Não veste roupas de cores quentes, tendendo sempre ao rosa, amarelo, azul claro ou salmão para quebrar o branco total, mas geralmente rosa.
Isso devido ao seu caráter explosivo e também ter um enredo muito grande com Oxalá, porque foi esse caminho de Onira que deu a Oxaguiã, o poder sobre o atòri. Quando essa Ya se manifesta é de costume colocarem preso em suas costas ou em sua saia um atòri.
Ela é presença ilustre nas festas dedicadas a Oxalá.
Onira reina no mundo dos mortos e tem ligação direta com Obaluaiyè e Ògún
Sua ligação maior é com Oxum Opará, que recebeu de Onira ensinamentos para lutar e ser guerreira.
OPARÁ TORNOU-SE AMIGA INSEPARÁVEL DE ONIRA.
Comem juntas no bambuzal ou nos rios e aprenderam os fundamentos dos Eguns

domingo, 29 de março de 2015

Raul Seixas





"Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava lá meditando. Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos disco voador. Ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Para as verdades individuais. Tá todo mundo estereotipado. Por isso é que eu faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo Schopenhauer, todo mundo num pessimismo incrível. Essa geração audiovisual, e digo isso muito maldosamente, eu chamo eles de audiovisuaizinhos". Eu sou Egoísta. Eu acho que o individualismo é muito mais sincero do que as preocupações com a coletividade. Não existe outro Deus senão o próprio homem. Se eu descobrisse que era bicha, ia sair por aí transando com todo mundo na maior e ia ser o maior barato. A verdadeira resposta que eu tenho do público é uma só: o medo. Todos estão com medo de tudo e até de mim. Quando eu chego perto das pessoas, elas se calam. Quando eu encaro alguém na platéia, eles viram a cara. Depois da Tropicália é possível alguém chegar pra você e dizer que música é uma coisa muito séria? Essa história de procurar raízes é uma bobagem. As únicas raízes que eu conheço são de amendoim e mandioca. Já me borrei de tanto rir ouvindo o infinito sendo explicado. Se sendo é um verbo prefiro ficar sendo calado."

Raul Seixas

segunda-feira, 23 de março de 2015

Nude (Nu)



Don't get any big ideas
They're not gonna happen
You paint yourself white
And fill all with noise
But there'll be something missing

Now that you've found it, it's gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails

So don't get any big ideas
They're not going to happen
You'll go to hell for what your dirty mind is thinking


Não tenha grandes idéias
Elas não vão acontecer
Você se pinta de branco
E enche tudo com barulho
Mas estará faltando alguma coisa

Quando você encontra, já se foi
Quando você sente, não sente mais

Você saiu dos trilhos

Então não tenha grandes idéias
Elas não vão acontecer
Você vai para o inferno pelo o que sua mente suja está pensando
(Radiohead)

domingo, 8 de março de 2015

Prosa Poética




Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
Sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
Do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
Expulsar de mim essa Nossa Senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
Onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
Nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, Ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
E ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
Não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
Neste fim de século sem certezas?
Eu quero que a solidão me esqueça.


Viviane Mosé