segunda-feira, 30 de março de 2015

ONIRA, A NINFA DAS ÁGUAS DOCES



(OYÁ ONIRA: a Oyá "DOCE")
Conta-se uma lenda (itan) que existia nas terras de Irá, uma linda moça chamada Onira (Senhora de Irá), ela sempre comandava seu povo com sabedoria. Mas, ela tinha um grande problema: adorava lutar e se sentia bem em matar seus inimigos. Onira era descontrolada quando tinha em punho sua adaga de guerra. Certo dia enlouqueceu de vez, chegou a um vilarejo e matou todos que alí encontrou. Os sábios da cidade de Irá resolveram procurar Oxalá para que ele na condição de Rei, mandasse que Onira parasse de matar.
Onira recebeu o recado q Oxalá queria vê-la e foi até Ilê Ifé (palácio de Oxalá). Chegando lá, Oxalá assustou-se, pois as roupas de Onira eram vermelhas, de tanto sangue de suas vítimas. Ela ajoelhou-se e perguntou o que o grande Rei queria. Oxalá mandou que trouxessem uma grande quantidade de Efun (seu pó branco sagrado). Pegou seu pó e jogou sobre Onira. Na mesma hora suas vestes de cor vermelha tornaram-se rosa, por causa da mistura do pó branco com o sangue. Então, Oxalá ordenou que Onira não mataria mais ninguém, e que ela jamais vestiria vermelho em publico, e que rosa seria sua cor, e como ela era uma moça tão quente, que fosse morar nas águas junto com Oxum.
E lhe disse:
Onira minha filha, és uma moça tão bela, tão doce, por que matas?
Sinto-me bem quando tiro a vida de alguém, mas sei que isso não é certo.
Foi então que Oxalá teve uma ideia.
Já que você gosta de lidar com a vida e com a morte, você terá junto com Oyá o domínio sobre os Eguns. Não tirarás mais a vida de ninguém, apenas irá conduzir os que já se foram.
Está certo Oxalá, seu desejo será realizado mas não tire de mim minha adaga.
Oxalá disse: Pode deixar, mas agora vá morar na cachoeira com Oxum.
Onira obedeceu a Oxalá, foi morar na cachoeira. Chegando lá Oxum ria e debochava dela, mas resolveu ser sua amiga. Porém, Onira muito mal humorada, não queria papo. Até que um dia Onira adormeceu sobre uma pedra, olhando Oxum banhar-se e as águas da cachoeira subiram e Onira estava morrendo afogada, Oxum vendo o que estava acontecendo, mergulhou e foi salva-la, chegando lá Onira estava quase morta e Oxum resolveu fazer um feitiço e na mesma hora Onira reviveu e transformou-se em uma espécie de lava que correu rio a fora. Onira transformou-se em um rio de fogo. Oxum pensou que Onira havia morrido, chorou por horas, sem saber o que diria a Oxalá, já que ele a incumbiu de tomar conta da moça atrevida. Foi então que surgiu uma borboleta linda, de cor salmão com tons alaranjados, que voava ao redor de Oxum. Ela tentou pegar a borboleta que voou para dentro da floresta, Oxum seguiu a borboleta que parou em frente a uma árvore e tomou a forma da linda Onira. Oxum não acreditava no que via, e Onira lhe disse:
Por que choravas minha amiga, estou aqui viva, e graças a você!
Graças a mim porquê Onira? Eu não fiz nada.
Na hora que eu estava morrendo você fez um feitiço e dividiu comigo todo seu encanto, agora sou uma NINFA(mulher encantada), assim como você ,tenho poderes de transformação. Posso ser um RIO de FOGO nos meus momentos de ira, posso ser um BÚFALO quando eu quiser ficar sozinha, e me transformar na mais bela BORBOLETA quando estiver feliz. E Onira foi até Oxalá lhe contar o que havia acontecido, ele ficou feliz mas sabia que toda esta mudança jamais acalmaria Onira, e que por dentro ela ainda seria aquela guerreira incansável. Mandou então que ela fosse morar com Oyá e aprender a dominar os Eguns.
Depois, Onira mudou-se e foi viver com Oxosse e como ele foi criada por caçadores, sabia caçar como ninguém. Onira morou com quase todos os Orixás, aprendendo tudo que eles sabiam fazer.
Quando o culto aos Orixás veio para o Brasil, confundiram Onira com Oyá e por isso então ela passou a ser cultuada no Panteão das Oyás, tornando-se uma qualidade de Oyá. Mas sabemos que Onira é um orixá assim como todos os outros. Ela gosta das cores branco, dourado, rosa, salmão, assim como a determinação de Oxalá. Muitos acreditam que Onira por morar nas águas é um orixá calmo, mas este pequeno Itan nos mostra que Onira é um Orixá muito “quente”, uma moça guerreira e determinada.
Suas filhas são faladeiras, escandalosas, briguentas, metidas, arrogantes, divertidas, mal-humoradas, tem toda a doçura de Oxum e são atrevidas como Oyá.
Onira = a Senhora de Irá (terra de Oyá)
Ela é impulsiva e suas filhas carregam suas características
São capazes em momentos de comoção doar sem pensar, tudo o que tem, mas se a pessoa fizer uso indevido daquilo que ela doou, ela vai pra cima, sem mais delongas.
Se ela for traída então piorou, são capazes de tudo na hora de raiva; mas acabando esses momentos de impulsividade momentânea são pessoas maravilhosas, prestativas.
Possuem um pouco de dificuldade em guardar segredos, mas, em determinadas ocasiões, sabem manter a regra.
Onira Não veste roupas de cores quentes, tendendo sempre ao rosa, amarelo, azul claro ou salmão para quebrar o branco total, mas geralmente rosa.
Isso devido ao seu caráter explosivo e também ter um enredo muito grande com Oxalá, porque foi esse caminho de Onira que deu a Oxaguiã, o poder sobre o atòri. Quando essa Ya se manifesta é de costume colocarem preso em suas costas ou em sua saia um atòri.
Ela é presença ilustre nas festas dedicadas a Oxalá.
Onira reina no mundo dos mortos e tem ligação direta com Obaluaiyè e Ògún
Sua ligação maior é com Oxum Opará, que recebeu de Onira ensinamentos para lutar e ser guerreira.
OPARÁ TORNOU-SE AMIGA INSEPARÁVEL DE ONIRA.
Comem juntas no bambuzal ou nos rios e aprenderam os fundamentos dos Eguns

domingo, 29 de março de 2015

Raul Seixas





"Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava lá meditando. Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos disco voador. Ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Para as verdades individuais. Tá todo mundo estereotipado. Por isso é que eu faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo Schopenhauer, todo mundo num pessimismo incrível. Essa geração audiovisual, e digo isso muito maldosamente, eu chamo eles de audiovisuaizinhos". Eu sou Egoísta. Eu acho que o individualismo é muito mais sincero do que as preocupações com a coletividade. Não existe outro Deus senão o próprio homem. Se eu descobrisse que era bicha, ia sair por aí transando com todo mundo na maior e ia ser o maior barato. A verdadeira resposta que eu tenho do público é uma só: o medo. Todos estão com medo de tudo e até de mim. Quando eu chego perto das pessoas, elas se calam. Quando eu encaro alguém na platéia, eles viram a cara. Depois da Tropicália é possível alguém chegar pra você e dizer que música é uma coisa muito séria? Essa história de procurar raízes é uma bobagem. As únicas raízes que eu conheço são de amendoim e mandioca. Já me borrei de tanto rir ouvindo o infinito sendo explicado. Se sendo é um verbo prefiro ficar sendo calado."

Raul Seixas

segunda-feira, 23 de março de 2015

Nude (Nu)



Don't get any big ideas
They're not gonna happen
You paint yourself white
And fill all with noise
But there'll be something missing

Now that you've found it, it's gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails

So don't get any big ideas
They're not going to happen
You'll go to hell for what your dirty mind is thinking


Não tenha grandes idéias
Elas não vão acontecer
Você se pinta de branco
E enche tudo com barulho
Mas estará faltando alguma coisa

Quando você encontra, já se foi
Quando você sente, não sente mais

Você saiu dos trilhos

Então não tenha grandes idéias
Elas não vão acontecer
Você vai para o inferno pelo o que sua mente suja está pensando
(Radiohead)

domingo, 8 de março de 2015

Prosa Poética




Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
Sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
Do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
Expulsar de mim essa Nossa Senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
Onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
Nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, Ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
E ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
Não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
Neste fim de século sem certezas?
Eu quero que a solidão me esqueça.


Viviane Mosé

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O mundo e a percepção do mundo...



Muita gente acha que o mundo é grande e a percepção é um recorte, e aí a gente vai recortando o mundo a cada segundo. E a cada segundo o mundo se apresenta para nós numa janela, numa certa imagem. E aí é claro que como ninguém tá no lugar que nós estamos, o mundo acaba ficando um para cada um, porque num certo instante ninguém vê a mesma coisa que o outro até quando conversamos assim, o mundo pra você sou eu e o mundo pra mim é você. Nenhuma coincidência. Então a única pergunta é: Como ter certeza de que estamos todos no mesmo mundo se cada um vê uma coisa? Se cada um sente uma coisa? Se cada um percebe um mundo diferente? De qualquer maneira eu percebo o meu a cada segundo e não tenho nenhuma expectativa que percebam o mesmo mundo que eu. Mas o mundo está cheio de tiranos, pessoas que fazem questão de que todos concordem com ele. Que exige que todos vejamos a mesma coisa do mesmo jeito e na mesma perspectiva. E assim, de tirano em tirano, as guerras, guerras por perspectiva, guerras de percepção. Ora, quando observamos o mundo, muitas vezes acabamos caindo na ingênua crença de que "o que vemos" é o que "é", sem perceber que o que é, sempre nos escapará. O que vemos na verdade conta muito mais de nós do que do mundo. Basta pegar um microscópio e a mesa deixa de ser mesa. Na verdade, as coisas que aparecem diante de nós são muito mais vazio do que coisas. Os átomos em movimento são muito mais vazio que qualquer outra coisa e os núcleos dos átomos, que até ontem pareciam ser verdadeiras substância confiável hoje também sabemos, são muito mais vazio do que qualquer outra coisa. Talvez só haja vazio. Será mesmo tudo só uma ilusão? Afinal de contas, tudo o que eu percebo do mundo no final das contas, percebo em mim. O mundo não passa do meu próprio corpo afetado pelo mundo. Assim, quando eu apalpo alguma coisa, o que eu sinto não é alguma coisa, mas a minha mão, apertada, constrangida, pelo mundo apalpado. Quando eu cheiro também o mundo parece inodoro. O que eu cheiro sou eu mesmo. O aroma sou eu que produzo. O gosto sou eu que produzo. Papilas gustativas, vinhos tão caros, para eu mesmo dar-me gosto. Da mesma maneira a imagem, a imagem é luz, luz que reflete um suposto mundo que nunca teremos certeza se existe mesmo. E assim, quando vemos, vamos descobrindo muito a nosso respeito. Por isso o mundo, seja ele qual for, acaba sendo o nosso espelho. Se tivéssemos três olhos o mundo seria outro. Se tivéssemos 50 centímetros no lugar de 5 o mundo seria completamente outro. E, por isso, quando vemos o mundo na verdade, vemos com os sentidos que são os nossos. E por isso, acabamos aprendendo mais sobre a nossa capacidade de ver as coisas do que sobre as coisas elas mesmas. Então, o mundo acaba sendo o mesmo só um espelho. O importante é se conhecer, conhecer a própria capacidade de encontrar as coisas, conhecer os limites de percepção do mundo. Assim, o mundo é um espelho porque conta para nós coisas que sem ele jamais saberíamos. Quando vamos ao banheiro, o espelho nos fala da nossa cara sem ele não saberíamos o tamanho do nosso nariz, sem eles, sem o espelho não saberíamos a cor dos nossos olhos. O espelho nos informa sobre nós mesmos, sem ele, muito pouco saberíamos da topografia do nosso rosto. Se o mundo é o nosso espelho, tem que também informar coisas sobre nós. E faz. Afinal de contas o mundo nos informa sobre os nossos afetos. O mundo nos informa que diante de certa imagem nós nos alegramos, nós nos entristecemos, o mundo nos informa sobre os nossos medos específicos, as nossas esperanças, os nossos prazeres e as nossas dores. Graças ao mundo, eu posso me encantar com um sorriso e perceber que eu sou aquele que diante daquele sorriso se encanta. Graças ao mundo eu vou descobrindo segundo a segundo que eu sou alguém que se deixa afetar pelo mundo que passa na minha frente. Graças ao mundo eu vou descobrindo as singularidades das minhas emoções. Por isso, agradecer as imagens do mundo, agradecer a nossa percepção do mundo. Porque no final das contas é ela que nos permite conhecer um pouco mais a nosso respeito. Tarefa importante desde os gregos, conhecer-se a si mesmo, talvez por não ser possível conhecer mais nada além de nós mesmos, talvez porque não possamos mesmo sair de nós mesmos. Quando percebemos alguma coisa no mundo, a nossa percepção não é um encontro mecânico com a realidade que supostamente existe. Afinal de contas, todo o nosso corpo participa de qualquer percepção. Se fosse possível que alguém fizesse coincidir seus olhos aos meus, também não veria o mesmo mundo que eu vejo. Porque aparentemente a percepção que eu tenho do mundo, a percepção de uma imagem, depende de todo o corpo. Dele participam o peristaltismo intestinal, o fígado os rins, o joelho, o cotovelo, as alegrias, as tristezas, as dores, as esperanças, as frustrações e os sucessos... e é por isso que quando estamos alegres vemos mesmo o mundo diferente, porque não é só uma questão de olho, não é só uma questão de ótica, é uma questão corporal. Todo o corpo encara o mundo e todo o corpo participa dessa estranha percepção do mundo. Então, perceba só, é importante entender que a imagem percebida age sobre nós e nos alegra e nos entristece, da mesma maneira a alegria e tristeza que sentimos age sobre a imagem e a percepção e define o mundo que se apresenta diante de nós. Estranha interação. Afinal, o que terá vindo primeiro, a alegria ou o mundo? Talvez os dois. Talvez o ovo e a galinha. O fato é, que dependendo da alegria o mundo se apresenta de um jeito. Dependendo de como o mundo se apresenta a alegria será uma ou outra. Alegria é importante, alegria oscila, a alegria intercala com a tristeza. Porque a tristeza essa aparentemente faz parte da vida. Os mundos se desmentem, os mundos são contraditórios e para que haja alegria é preciso mesmo haver tristeza. E as imagens são assim, mundos contraditórios, mundos que se desmentem. Gol do Brasil, gol da Holanda, vitória da Dilma, vitória do Serra... e aí impossível se alegrar com os dois, com mundos que se desmentem. Por isso, para ter alegria é preciso também ter tristeza. Um perdão a autoajuda que promete felicidade, alegria e alegria, como se banir a tristeza do mundo coubesse em 10, 20 ou 1500 lições. Ora, essa percepção do mundo misturada com a nossa alegria decorre da potência que é a nossa para perceber o mundo, cada um de nós percebe as coisas, percebe as imagens diante de nós a partir de uma certa energia vital, a partir de uma certa potência, a partir de uma certa libido, de um certo tesão pela vida. E é claro, a imagem faz oscilar o tesão pela vida, o tesão pela vida faz oscilar a imagem. Os dois se interdependem, os dois dialeticamente se determinam e assim é claro vamos vivendo e oscilando alegrias e tristezas, e fazendo correr imagens num espetáculo perceptivo que não termina. Sempre pairará sobre nós a dúvida. Haverá algum mundo que percebemos? Ou toda percepção não passa de um delírio? Questão de Berkley. Questão de Matrix. Questão de todos nós. Será mesmo que o mundo é um delírio só nosso e as outras pessoas mero personagem do nosso delírio. Ou será que os outros deliram também, filme dos quais teremos acesso. O fato é que vamos delirando na nossa estrita singularidade, na ilha afetiva que é a nossa, porque ninguém sente o que sentimos, ninguém pensa o que pensamos e mesmo quando damos causa a sensação do outro, mesmo quando damos causa ao orgasmo do outro, mesmo quando dentro do outro lhes produzimos o mais significativos prazeres, esses são 110% dos outros, ilhas afetivas, espaços de percepção singular, filmes assistidos só por nós. E assim vamos. Felizmente, máquinas deixam registros, e os registros das máquina contam muito mais da máquina do que do mundo registrado. Máquinas diferentes, registros diferentes, de mundos que não sabemos se existem. Um pouco diferente, um pouco igual, aos sentidos. As máquinas deixam registros e permitem reviver um passado, um passado que não é mais, um passado que se torna presente. Um passado que é presente, um passado que é presente. Um passado, presentificado. E assim vamos oscilando entre tempos que não são os nossos. Mas isso é coisa da alma, coisa do espírito, coisa só nossa. Porque no mundo só tem um instante. Porque na alma, a alma dura, a alma tem duração, a alma demora para passar, a alma passa rápido. O tempo da alma pouco ou nada tem a ver com o tempo do mundo. Feliz ou infelizmente. O fato é que pra nós, o tempo dura, o tempo passa, o tempo vai rápido, o tempo vai devagar, dando bolacha para o tempo do mundo que de segundo a segundo, na sua inexorabilidade, vai corroendo as coisas e destruindo mortais e fazendo novas vidas acontecerem. E assim vamos, entre o passado e futuro, oscilando em tempo que não são os nossos, quer por nostalgia, quer por esperança, fugindo de um instante que sabemos nos abrir, alguns raiam conosco, porque não prestamos mais atenção no instante que é o nosso? Porque não daríamos mais conta das percepções do instante com os sentidos que são os nossos? Porque não daríamos mais importância pro presente? Somos vítimas de nós mesmos, suicidas em potencial, sempre a caminho da morte, esperando que a vida termine porque ela parece demorar pra terminar. Era isso.

Clóvis de Barros Filho

https://www.youtube.com/watch?v=hg_8E8vUYy0

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Mudar o mundo do sofá da sala e postar no insta...

...E se a maconha for da boa que se foda a ideologia.*

Praia de Ipanema, posto 9. Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015.
Eu e uma galera da faculdade fomos à praia, em um grupo de aproximadamente umas dez pessoas, a maioria negros, estudantes das áreas de Humanas e Belas Artes, da UFRJ e UERJ. Estávamos de saída quando passamos por uma loja que parecia vender objetos artísticos, tinha algo de contemporâneo, não me chamou muita atenção, mas a galera se reuniu na vitrine e começaram as críticas, estavam todos discutindo sobre as artes quando, elegantemente, a vendedora se levantou, fechou (trancou) a porta, e se voltou para o local onde estava sentada com a mesma elegância, todos perplexos com a atitude da moça, começaram a reclamar, indignados. "O racismo existe!". E foram aos poucos saindo e comentando sobre a situação. Um ficou, um dos poucos "brancos" do grupo, mas tava com a "negada" então foi visto como tal, e começou a bater na porta e reclamar com a vendedora pela fresta, quando apareceu um segurança da rua, que possivelmente foi chamado pela vendedora, já chegou agredindo o menino que ficou na porta do loja e o arrastando, dizendo que estávamos importunando e ele era responsável pela segurança da rua e que estávamos fazendo baderna, o meu amigo se desculpou disse que já estava indo embora e que não precisava criar nenhuma confusão e o segurança se cresceu pra cima dele quando eu fui "comprar a briga", cheguei argumentando que estávamos apenas olhando a loja quando a vendedora fechou a porta na nossa cara, que ela estava errada porque ela estava selecionando o publico que entraria ou não na loja e que o nome disso seria discriminação, ele largou o meu amigo e disse que apenas recebia ordens e estava cumprindo a sua função e que se não nos tirássemos dali ele levaria esporro. Enfim, todos saíram revoltados, mas ninguém argumentou nada com o segurança, nem com a vendedora. Foi um crime, discriminação, racismo, preconceito e o que mais me admirou foi o fato de que ninguém fez nada, todos se calaram, só gritavam "a Zona Sul não é para gente", "somos pretos e pobres", "a burguesia é escrota"...
E eu conversando com o único não universitário e mais novo do grupo, que quando o segurança apareceu saiu me puxando pelo braço, falou que quem sofreu a advertência não teve nenhuma reação, e que não adiantava discutir entre si sobre as medidas a serem tomadas enquanto toma um gelo na praia, não adianta ser revolucionário só em debates com a galera mas não saber agir no momento certo. Fiquei refletindo sobre isso durante um bom tempo, ao começar a perceber inúmeras vezes, em pequenos detalhes, todo preconceito social e racial que ainda permeia o Brasil, explicitamente, porque ele tá aí pra quem quiser ver. Mas o que mais me deixou comovida foi a reação da galera, ou melhor a falta de reação.
Até quando?! Ser idealista dentro das quatro paredes de uma universidade, filosofia de boteco, discutir pensadores mas ser incapaz de pensar por si, tomar uma atitude condizente. "Ajuste o gesto à palavra, ajuste a palavra ao gesto". Ser anarquista está na moda mas ninguém abre a mão de duas de cinco. As pessoas debatem sobre assuntos mas parecem mais uma reprodução em massa. Pior do que ser ignorante é fazer mal uso das informações.

"Em frente ao shoppin' marcar rolêzin'
Debater sobre cota, copas e afins
O opressor é omisso e o sistema é cupim"*

*By Criolê

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Kandinsky - Composição II


Composição II deve seu nome ao método de elaboração pictórico definido por Kandinsky como "composição sinfônica" ou "complexa, composta de várias formas subordinadas a uma forma principal clara ou velada. Essa parece ser dificílima de reconhecer, o que dá uma ênfase particularmente forte à base interior."

Kandinsky garantia que Composição II foi pintada sem um tema preciso. Mesmo assim, surgiram numerosas leituras iconológicas. Enquanto Will Grohmann reconhece nela um ambiente pastoril festivo, com um grupo de crianças que brincam à direita, Rose-Carol Long identificou uma série de referências ao tema água - como na figura de braço erguido que parece se afogar à esquerda -, que aludiria a uma dimensão apocalíptica, comuns a vários outros trabalhos posteriores de Kandinsky. Mais recentemente, Peg Weiss vinculou essas referências ao tema do dilúvio universal. A imagem estendida em primeiro plano estaria relacionada a Vata, espírito da água capaz de causar inundações. A pequena figura amarela cruciforme representaria o Príncipe de Ouro, divindade mediadora entre os humanos e os deuses celestiais.


Estudo para Composição
1910
Óleo sobre tela (97,5 x 130,5cm)
Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York

(Grandes Mestres, Coleção Abril - Kandinsky)