sábado, 28 de fevereiro de 2015

O mundo e a percepção do mundo...



Muita gente acha que o mundo é grande e a percepção é um recorte, e aí a gente vai recortando o mundo a cada segundo. E a cada segundo o mundo se apresenta para nós numa janela, numa certa imagem. E aí é claro que como ninguém tá no lugar que nós estamos, o mundo acaba ficando um para cada um, porque num certo instante ninguém vê a mesma coisa que o outro até quando conversamos assim, o mundo pra você sou eu e o mundo pra mim é você. Nenhuma coincidência. Então a única pergunta é: Como ter certeza de que estamos todos no mesmo mundo se cada um vê uma coisa? Se cada um sente uma coisa? Se cada um percebe um mundo diferente? De qualquer maneira eu percebo o meu a cada segundo e não tenho nenhuma expectativa que percebam o mesmo mundo que eu. Mas o mundo está cheio de tiranos, pessoas que fazem questão de que todos concordem com ele. Que exige que todos vejamos a mesma coisa do mesmo jeito e na mesma perspectiva. E assim, de tirano em tirano, as guerras, guerras por perspectiva, guerras de percepção. Ora, quando observamos o mundo, muitas vezes acabamos caindo na ingênua crença de que "o que vemos" é o que "é", sem perceber que o que é, sempre nos escapará. O que vemos na verdade conta muito mais de nós do que do mundo. Basta pegar um microscópio e a mesa deixa de ser mesa. Na verdade, as coisas que aparecem diante de nós são muito mais vazio do que coisas. Os átomos em movimento são muito mais vazio que qualquer outra coisa e os núcleos dos átomos, que até ontem pareciam ser verdadeiras substância confiável hoje também sabemos, são muito mais vazio do que qualquer outra coisa. Talvez só haja vazio. Será mesmo tudo só uma ilusão? Afinal de contas, tudo o que eu percebo do mundo no final das contas, percebo em mim. O mundo não passa do meu próprio corpo afetado pelo mundo. Assim, quando eu apalpo alguma coisa, o que eu sinto não é alguma coisa, mas a minha mão, apertada, constrangida, pelo mundo apalpado. Quando eu cheiro também o mundo parece inodoro. O que eu cheiro sou eu mesmo. O aroma sou eu que produzo. O gosto sou eu que produzo. Papilas gustativas, vinhos tão caros, para eu mesmo dar-me gosto. Da mesma maneira a imagem, a imagem é luz, luz que reflete um suposto mundo que nunca teremos certeza se existe mesmo. E assim, quando vemos, vamos descobrindo muito a nosso respeito. Por isso o mundo, seja ele qual for, acaba sendo o nosso espelho. Se tivéssemos três olhos o mundo seria outro. Se tivéssemos 50 centímetros no lugar de 5 o mundo seria completamente outro. E, por isso, quando vemos o mundo na verdade, vemos com os sentidos que são os nossos. E por isso, acabamos aprendendo mais sobre a nossa capacidade de ver as coisas do que sobre as coisas elas mesmas. Então, o mundo acaba sendo o mesmo só um espelho. O importante é se conhecer, conhecer a própria capacidade de encontrar as coisas, conhecer os limites de percepção do mundo. Assim, o mundo é um espelho porque conta para nós coisas que sem ele jamais saberíamos. Quando vamos ao banheiro, o espelho nos fala da nossa cara sem ele não saberíamos o tamanho do nosso nariz, sem eles, sem o espelho não saberíamos a cor dos nossos olhos. O espelho nos informa sobre nós mesmos, sem ele, muito pouco saberíamos da topografia do nosso rosto. Se o mundo é o nosso espelho, tem que também informar coisas sobre nós. E faz. Afinal de contas o mundo nos informa sobre os nossos afetos. O mundo nos informa que diante de certa imagem nós nos alegramos, nós nos entristecemos, o mundo nos informa sobre os nossos medos específicos, as nossas esperanças, os nossos prazeres e as nossas dores. Graças ao mundo, eu posso me encantar com um sorriso e perceber que eu sou aquele que diante daquele sorriso se encanta. Graças ao mundo eu vou descobrindo segundo a segundo que eu sou alguém que se deixa afetar pelo mundo que passa na minha frente. Graças ao mundo eu vou descobrindo as singularidades das minhas emoções. Por isso, agradecer as imagens do mundo, agradecer a nossa percepção do mundo. Porque no final das contas é ela que nos permite conhecer um pouco mais a nosso respeito. Tarefa importante desde os gregos, conhecer-se a si mesmo, talvez por não ser possível conhecer mais nada além de nós mesmos, talvez porque não possamos mesmo sair de nós mesmos. Quando percebemos alguma coisa no mundo, a nossa percepção não é um encontro mecânico com a realidade que supostamente existe. Afinal de contas, todo o nosso corpo participa de qualquer percepção. Se fosse possível que alguém fizesse coincidir seus olhos aos meus, também não veria o mesmo mundo que eu vejo. Porque aparentemente a percepção que eu tenho do mundo, a percepção de uma imagem, depende de todo o corpo. Dele participam o peristaltismo intestinal, o fígado os rins, o joelho, o cotovelo, as alegrias, as tristezas, as dores, as esperanças, as frustrações e os sucessos... e é por isso que quando estamos alegres vemos mesmo o mundo diferente, porque não é só uma questão de olho, não é só uma questão de ótica, é uma questão corporal. Todo o corpo encara o mundo e todo o corpo participa dessa estranha percepção do mundo. Então, perceba só, é importante entender que a imagem percebida age sobre nós e nos alegra e nos entristece, da mesma maneira a alegria e tristeza que sentimos age sobre a imagem e a percepção e define o mundo que se apresenta diante de nós. Estranha interação. Afinal, o que terá vindo primeiro, a alegria ou o mundo? Talvez os dois. Talvez o ovo e a galinha. O fato é, que dependendo da alegria o mundo se apresenta de um jeito. Dependendo de como o mundo se apresenta a alegria será uma ou outra. Alegria é importante, alegria oscila, a alegria intercala com a tristeza. Porque a tristeza essa aparentemente faz parte da vida. Os mundos se desmentem, os mundos são contraditórios e para que haja alegria é preciso mesmo haver tristeza. E as imagens são assim, mundos contraditórios, mundos que se desmentem. Gol do Brasil, gol da Holanda, vitória da Dilma, vitória do Serra... e aí impossível se alegrar com os dois, com mundos que se desmentem. Por isso, para ter alegria é preciso também ter tristeza. Um perdão a autoajuda que promete felicidade, alegria e alegria, como se banir a tristeza do mundo coubesse em 10, 20 ou 1500 lições. Ora, essa percepção do mundo misturada com a nossa alegria decorre da potência que é a nossa para perceber o mundo, cada um de nós percebe as coisas, percebe as imagens diante de nós a partir de uma certa energia vital, a partir de uma certa potência, a partir de uma certa libido, de um certo tesão pela vida. E é claro, a imagem faz oscilar o tesão pela vida, o tesão pela vida faz oscilar a imagem. Os dois se interdependem, os dois dialeticamente se determinam e assim é claro vamos vivendo e oscilando alegrias e tristezas, e fazendo correr imagens num espetáculo perceptivo que não termina. Sempre pairará sobre nós a dúvida. Haverá algum mundo que percebemos? Ou toda percepção não passa de um delírio? Questão de Berkley. Questão de Matrix. Questão de todos nós. Será mesmo que o mundo é um delírio só nosso e as outras pessoas mero personagem do nosso delírio. Ou será que os outros deliram também, filme dos quais teremos acesso. O fato é que vamos delirando na nossa estrita singularidade, na ilha afetiva que é a nossa, porque ninguém sente o que sentimos, ninguém pensa o que pensamos e mesmo quando damos causa a sensação do outro, mesmo quando damos causa ao orgasmo do outro, mesmo quando dentro do outro lhes produzimos o mais significativos prazeres, esses são 110% dos outros, ilhas afetivas, espaços de percepção singular, filmes assistidos só por nós. E assim vamos. Felizmente, máquinas deixam registros, e os registros das máquina contam muito mais da máquina do que do mundo registrado. Máquinas diferentes, registros diferentes, de mundos que não sabemos se existem. Um pouco diferente, um pouco igual, aos sentidos. As máquinas deixam registros e permitem reviver um passado, um passado que não é mais, um passado que se torna presente. Um passado que é presente, um passado que é presente. Um passado, presentificado. E assim vamos oscilando entre tempos que não são os nossos. Mas isso é coisa da alma, coisa do espírito, coisa só nossa. Porque no mundo só tem um instante. Porque na alma, a alma dura, a alma tem duração, a alma demora para passar, a alma passa rápido. O tempo da alma pouco ou nada tem a ver com o tempo do mundo. Feliz ou infelizmente. O fato é que pra nós, o tempo dura, o tempo passa, o tempo vai rápido, o tempo vai devagar, dando bolacha para o tempo do mundo que de segundo a segundo, na sua inexorabilidade, vai corroendo as coisas e destruindo mortais e fazendo novas vidas acontecerem. E assim vamos, entre o passado e futuro, oscilando em tempo que não são os nossos, quer por nostalgia, quer por esperança, fugindo de um instante que sabemos nos abrir, alguns raiam conosco, porque não prestamos mais atenção no instante que é o nosso? Porque não daríamos mais conta das percepções do instante com os sentidos que são os nossos? Porque não daríamos mais importância pro presente? Somos vítimas de nós mesmos, suicidas em potencial, sempre a caminho da morte, esperando que a vida termine porque ela parece demorar pra terminar. Era isso.

Clóvis de Barros Filho

https://www.youtube.com/watch?v=hg_8E8vUYy0

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