sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Mudar o mundo do sofá da sala e postar no insta...

...E se a maconha for da boa que se foda a ideologia.*

Praia de Ipanema, posto 9. Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015.
Eu e uma galera da faculdade fomos à praia, em um grupo de aproximadamente umas dez pessoas, a maioria negros, estudantes das áreas de Humanas e Belas Artes, da UFRJ e UERJ. Estávamos de saída quando passamos por uma loja que parecia vender objetos artísticos, tinha algo de contemporâneo, não me chamou muita atenção, mas a galera se reuniu na vitrine e começaram as críticas, estavam todos discutindo sobre as artes quando, elegantemente, a vendedora se levantou, fechou (trancou) a porta, e se voltou para o local onde estava sentada com a mesma elegância, todos perplexos com a atitude da moça, começaram a reclamar, indignados. "O racismo existe!". E foram aos poucos saindo e comentando sobre a situação. Um ficou, um dos poucos "brancos" do grupo, mas tava com a "negada" então foi visto como tal, e começou a bater na porta e reclamar com a vendedora pela fresta, quando apareceu um segurança da rua, que possivelmente foi chamado pela vendedora, já chegou agredindo o menino que ficou na porta do loja e o arrastando, dizendo que estávamos importunando e ele era responsável pela segurança da rua e que estávamos fazendo baderna, o meu amigo se desculpou disse que já estava indo embora e que não precisava criar nenhuma confusão e o segurança se cresceu pra cima dele quando eu fui "comprar a briga", cheguei argumentando que estávamos apenas olhando a loja quando a vendedora fechou a porta na nossa cara, que ela estava errada porque ela estava selecionando o publico que entraria ou não na loja e que o nome disso seria discriminação, ele largou o meu amigo e disse que apenas recebia ordens e estava cumprindo a sua função e que se não nos tirássemos dali ele levaria esporro. Enfim, todos saíram revoltados, mas ninguém argumentou nada com o segurança, nem com a vendedora. Foi um crime, discriminação, racismo, preconceito e o que mais me admirou foi o fato de que ninguém fez nada, todos se calaram, só gritavam "a Zona Sul não é para gente", "somos pretos e pobres", "a burguesia é escrota"...
E eu conversando com o único não universitário e mais novo do grupo, que quando o segurança apareceu saiu me puxando pelo braço, falou que quem sofreu a advertência não teve nenhuma reação, e que não adiantava discutir entre si sobre as medidas a serem tomadas enquanto toma um gelo na praia, não adianta ser revolucionário só em debates com a galera mas não saber agir no momento certo. Fiquei refletindo sobre isso durante um bom tempo, ao começar a perceber inúmeras vezes, em pequenos detalhes, todo preconceito social e racial que ainda permeia o Brasil, explicitamente, porque ele tá aí pra quem quiser ver. Mas o que mais me deixou comovida foi a reação da galera, ou melhor a falta de reação.
Até quando?! Ser idealista dentro das quatro paredes de uma universidade, filosofia de boteco, discutir pensadores mas ser incapaz de pensar por si, tomar uma atitude condizente. "Ajuste o gesto à palavra, ajuste a palavra ao gesto". Ser anarquista está na moda mas ninguém abre a mão de duas de cinco. As pessoas debatem sobre assuntos mas parecem mais uma reprodução em massa. Pior do que ser ignorante é fazer mal uso das informações.

"Em frente ao shoppin' marcar rolêzin'
Debater sobre cota, copas e afins
O opressor é omisso e o sistema é cupim"*

*By Criolê

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