sábado, 28 de fevereiro de 2015

O mundo e a percepção do mundo...



Muita gente acha que o mundo é grande e a percepção é um recorte, e aí a gente vai recortando o mundo a cada segundo. E a cada segundo o mundo se apresenta para nós numa janela, numa certa imagem. E aí é claro que como ninguém tá no lugar que nós estamos, o mundo acaba ficando um para cada um, porque num certo instante ninguém vê a mesma coisa que o outro até quando conversamos assim, o mundo pra você sou eu e o mundo pra mim é você. Nenhuma coincidência. Então a única pergunta é: Como ter certeza de que estamos todos no mesmo mundo se cada um vê uma coisa? Se cada um sente uma coisa? Se cada um percebe um mundo diferente? De qualquer maneira eu percebo o meu a cada segundo e não tenho nenhuma expectativa que percebam o mesmo mundo que eu. Mas o mundo está cheio de tiranos, pessoas que fazem questão de que todos concordem com ele. Que exige que todos vejamos a mesma coisa do mesmo jeito e na mesma perspectiva. E assim, de tirano em tirano, as guerras, guerras por perspectiva, guerras de percepção. Ora, quando observamos o mundo, muitas vezes acabamos caindo na ingênua crença de que "o que vemos" é o que "é", sem perceber que o que é, sempre nos escapará. O que vemos na verdade conta muito mais de nós do que do mundo. Basta pegar um microscópio e a mesa deixa de ser mesa. Na verdade, as coisas que aparecem diante de nós são muito mais vazio do que coisas. Os átomos em movimento são muito mais vazio que qualquer outra coisa e os núcleos dos átomos, que até ontem pareciam ser verdadeiras substância confiável hoje também sabemos, são muito mais vazio do que qualquer outra coisa. Talvez só haja vazio. Será mesmo tudo só uma ilusão? Afinal de contas, tudo o que eu percebo do mundo no final das contas, percebo em mim. O mundo não passa do meu próprio corpo afetado pelo mundo. Assim, quando eu apalpo alguma coisa, o que eu sinto não é alguma coisa, mas a minha mão, apertada, constrangida, pelo mundo apalpado. Quando eu cheiro também o mundo parece inodoro. O que eu cheiro sou eu mesmo. O aroma sou eu que produzo. O gosto sou eu que produzo. Papilas gustativas, vinhos tão caros, para eu mesmo dar-me gosto. Da mesma maneira a imagem, a imagem é luz, luz que reflete um suposto mundo que nunca teremos certeza se existe mesmo. E assim, quando vemos, vamos descobrindo muito a nosso respeito. Por isso o mundo, seja ele qual for, acaba sendo o nosso espelho. Se tivéssemos três olhos o mundo seria outro. Se tivéssemos 50 centímetros no lugar de 5 o mundo seria completamente outro. E, por isso, quando vemos o mundo na verdade, vemos com os sentidos que são os nossos. E por isso, acabamos aprendendo mais sobre a nossa capacidade de ver as coisas do que sobre as coisas elas mesmas. Então, o mundo acaba sendo o mesmo só um espelho. O importante é se conhecer, conhecer a própria capacidade de encontrar as coisas, conhecer os limites de percepção do mundo. Assim, o mundo é um espelho porque conta para nós coisas que sem ele jamais saberíamos. Quando vamos ao banheiro, o espelho nos fala da nossa cara sem ele não saberíamos o tamanho do nosso nariz, sem eles, sem o espelho não saberíamos a cor dos nossos olhos. O espelho nos informa sobre nós mesmos, sem ele, muito pouco saberíamos da topografia do nosso rosto. Se o mundo é o nosso espelho, tem que também informar coisas sobre nós. E faz. Afinal de contas o mundo nos informa sobre os nossos afetos. O mundo nos informa que diante de certa imagem nós nos alegramos, nós nos entristecemos, o mundo nos informa sobre os nossos medos específicos, as nossas esperanças, os nossos prazeres e as nossas dores. Graças ao mundo, eu posso me encantar com um sorriso e perceber que eu sou aquele que diante daquele sorriso se encanta. Graças ao mundo eu vou descobrindo segundo a segundo que eu sou alguém que se deixa afetar pelo mundo que passa na minha frente. Graças ao mundo eu vou descobrindo as singularidades das minhas emoções. Por isso, agradecer as imagens do mundo, agradecer a nossa percepção do mundo. Porque no final das contas é ela que nos permite conhecer um pouco mais a nosso respeito. Tarefa importante desde os gregos, conhecer-se a si mesmo, talvez por não ser possível conhecer mais nada além de nós mesmos, talvez porque não possamos mesmo sair de nós mesmos. Quando percebemos alguma coisa no mundo, a nossa percepção não é um encontro mecânico com a realidade que supostamente existe. Afinal de contas, todo o nosso corpo participa de qualquer percepção. Se fosse possível que alguém fizesse coincidir seus olhos aos meus, também não veria o mesmo mundo que eu vejo. Porque aparentemente a percepção que eu tenho do mundo, a percepção de uma imagem, depende de todo o corpo. Dele participam o peristaltismo intestinal, o fígado os rins, o joelho, o cotovelo, as alegrias, as tristezas, as dores, as esperanças, as frustrações e os sucessos... e é por isso que quando estamos alegres vemos mesmo o mundo diferente, porque não é só uma questão de olho, não é só uma questão de ótica, é uma questão corporal. Todo o corpo encara o mundo e todo o corpo participa dessa estranha percepção do mundo. Então, perceba só, é importante entender que a imagem percebida age sobre nós e nos alegra e nos entristece, da mesma maneira a alegria e tristeza que sentimos age sobre a imagem e a percepção e define o mundo que se apresenta diante de nós. Estranha interação. Afinal, o que terá vindo primeiro, a alegria ou o mundo? Talvez os dois. Talvez o ovo e a galinha. O fato é, que dependendo da alegria o mundo se apresenta de um jeito. Dependendo de como o mundo se apresenta a alegria será uma ou outra. Alegria é importante, alegria oscila, a alegria intercala com a tristeza. Porque a tristeza essa aparentemente faz parte da vida. Os mundos se desmentem, os mundos são contraditórios e para que haja alegria é preciso mesmo haver tristeza. E as imagens são assim, mundos contraditórios, mundos que se desmentem. Gol do Brasil, gol da Holanda, vitória da Dilma, vitória do Serra... e aí impossível se alegrar com os dois, com mundos que se desmentem. Por isso, para ter alegria é preciso também ter tristeza. Um perdão a autoajuda que promete felicidade, alegria e alegria, como se banir a tristeza do mundo coubesse em 10, 20 ou 1500 lições. Ora, essa percepção do mundo misturada com a nossa alegria decorre da potência que é a nossa para perceber o mundo, cada um de nós percebe as coisas, percebe as imagens diante de nós a partir de uma certa energia vital, a partir de uma certa potência, a partir de uma certa libido, de um certo tesão pela vida. E é claro, a imagem faz oscilar o tesão pela vida, o tesão pela vida faz oscilar a imagem. Os dois se interdependem, os dois dialeticamente se determinam e assim é claro vamos vivendo e oscilando alegrias e tristezas, e fazendo correr imagens num espetáculo perceptivo que não termina. Sempre pairará sobre nós a dúvida. Haverá algum mundo que percebemos? Ou toda percepção não passa de um delírio? Questão de Berkley. Questão de Matrix. Questão de todos nós. Será mesmo que o mundo é um delírio só nosso e as outras pessoas mero personagem do nosso delírio. Ou será que os outros deliram também, filme dos quais teremos acesso. O fato é que vamos delirando na nossa estrita singularidade, na ilha afetiva que é a nossa, porque ninguém sente o que sentimos, ninguém pensa o que pensamos e mesmo quando damos causa a sensação do outro, mesmo quando damos causa ao orgasmo do outro, mesmo quando dentro do outro lhes produzimos o mais significativos prazeres, esses são 110% dos outros, ilhas afetivas, espaços de percepção singular, filmes assistidos só por nós. E assim vamos. Felizmente, máquinas deixam registros, e os registros das máquina contam muito mais da máquina do que do mundo registrado. Máquinas diferentes, registros diferentes, de mundos que não sabemos se existem. Um pouco diferente, um pouco igual, aos sentidos. As máquinas deixam registros e permitem reviver um passado, um passado que não é mais, um passado que se torna presente. Um passado que é presente, um passado que é presente. Um passado, presentificado. E assim vamos oscilando entre tempos que não são os nossos. Mas isso é coisa da alma, coisa do espírito, coisa só nossa. Porque no mundo só tem um instante. Porque na alma, a alma dura, a alma tem duração, a alma demora para passar, a alma passa rápido. O tempo da alma pouco ou nada tem a ver com o tempo do mundo. Feliz ou infelizmente. O fato é que pra nós, o tempo dura, o tempo passa, o tempo vai rápido, o tempo vai devagar, dando bolacha para o tempo do mundo que de segundo a segundo, na sua inexorabilidade, vai corroendo as coisas e destruindo mortais e fazendo novas vidas acontecerem. E assim vamos, entre o passado e futuro, oscilando em tempo que não são os nossos, quer por nostalgia, quer por esperança, fugindo de um instante que sabemos nos abrir, alguns raiam conosco, porque não prestamos mais atenção no instante que é o nosso? Porque não daríamos mais conta das percepções do instante com os sentidos que são os nossos? Porque não daríamos mais importância pro presente? Somos vítimas de nós mesmos, suicidas em potencial, sempre a caminho da morte, esperando que a vida termine porque ela parece demorar pra terminar. Era isso.

Clóvis de Barros Filho

https://www.youtube.com/watch?v=hg_8E8vUYy0

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Mudar o mundo do sofá da sala e postar no insta...

...E se a maconha for da boa que se foda a ideologia.*

Praia de Ipanema, posto 9. Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015.
Eu e uma galera da faculdade fomos à praia, em um grupo de aproximadamente umas dez pessoas, a maioria negros, estudantes das áreas de Humanas e Belas Artes, da UFRJ e UERJ. Estávamos de saída quando passamos por uma loja que parecia vender objetos artísticos, tinha algo de contemporâneo, não me chamou muita atenção, mas a galera se reuniu na vitrine e começaram as críticas, estavam todos discutindo sobre as artes quando, elegantemente, a vendedora se levantou, fechou (trancou) a porta, e se voltou para o local onde estava sentada com a mesma elegância, todos perplexos com a atitude da moça, começaram a reclamar, indignados. "O racismo existe!". E foram aos poucos saindo e comentando sobre a situação. Um ficou, um dos poucos "brancos" do grupo, mas tava com a "negada" então foi visto como tal, e começou a bater na porta e reclamar com a vendedora pela fresta, quando apareceu um segurança da rua, que possivelmente foi chamado pela vendedora, já chegou agredindo o menino que ficou na porta do loja e o arrastando, dizendo que estávamos importunando e ele era responsável pela segurança da rua e que estávamos fazendo baderna, o meu amigo se desculpou disse que já estava indo embora e que não precisava criar nenhuma confusão e o segurança se cresceu pra cima dele quando eu fui "comprar a briga", cheguei argumentando que estávamos apenas olhando a loja quando a vendedora fechou a porta na nossa cara, que ela estava errada porque ela estava selecionando o publico que entraria ou não na loja e que o nome disso seria discriminação, ele largou o meu amigo e disse que apenas recebia ordens e estava cumprindo a sua função e que se não nos tirássemos dali ele levaria esporro. Enfim, todos saíram revoltados, mas ninguém argumentou nada com o segurança, nem com a vendedora. Foi um crime, discriminação, racismo, preconceito e o que mais me admirou foi o fato de que ninguém fez nada, todos se calaram, só gritavam "a Zona Sul não é para gente", "somos pretos e pobres", "a burguesia é escrota"...
E eu conversando com o único não universitário e mais novo do grupo, que quando o segurança apareceu saiu me puxando pelo braço, falou que quem sofreu a advertência não teve nenhuma reação, e que não adiantava discutir entre si sobre as medidas a serem tomadas enquanto toma um gelo na praia, não adianta ser revolucionário só em debates com a galera mas não saber agir no momento certo. Fiquei refletindo sobre isso durante um bom tempo, ao começar a perceber inúmeras vezes, em pequenos detalhes, todo preconceito social e racial que ainda permeia o Brasil, explicitamente, porque ele tá aí pra quem quiser ver. Mas o que mais me deixou comovida foi a reação da galera, ou melhor a falta de reação.
Até quando?! Ser idealista dentro das quatro paredes de uma universidade, filosofia de boteco, discutir pensadores mas ser incapaz de pensar por si, tomar uma atitude condizente. "Ajuste o gesto à palavra, ajuste a palavra ao gesto". Ser anarquista está na moda mas ninguém abre a mão de duas de cinco. As pessoas debatem sobre assuntos mas parecem mais uma reprodução em massa. Pior do que ser ignorante é fazer mal uso das informações.

"Em frente ao shoppin' marcar rolêzin'
Debater sobre cota, copas e afins
O opressor é omisso e o sistema é cupim"*

*By Criolê

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Kandinsky - Composição II


Composição II deve seu nome ao método de elaboração pictórico definido por Kandinsky como "composição sinfônica" ou "complexa, composta de várias formas subordinadas a uma forma principal clara ou velada. Essa parece ser dificílima de reconhecer, o que dá uma ênfase particularmente forte à base interior."

Kandinsky garantia que Composição II foi pintada sem um tema preciso. Mesmo assim, surgiram numerosas leituras iconológicas. Enquanto Will Grohmann reconhece nela um ambiente pastoril festivo, com um grupo de crianças que brincam à direita, Rose-Carol Long identificou uma série de referências ao tema água - como na figura de braço erguido que parece se afogar à esquerda -, que aludiria a uma dimensão apocalíptica, comuns a vários outros trabalhos posteriores de Kandinsky. Mais recentemente, Peg Weiss vinculou essas referências ao tema do dilúvio universal. A imagem estendida em primeiro plano estaria relacionada a Vata, espírito da água capaz de causar inundações. A pequena figura amarela cruciforme representaria o Príncipe de Ouro, divindade mediadora entre os humanos e os deuses celestiais.


Estudo para Composição
1910
Óleo sobre tela (97,5 x 130,5cm)
Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York

(Grandes Mestres, Coleção Abril - Kandinsky)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

DioNise-se!

Ditirambo, Ditirambo

Dionísos não me deixa dormir,
Ele me quer enlouquecer
Ó Dionísos o que posso fazer?
Dionísos me quer dançando
Dionísos me quer cantando
Ele me quer Dionisando.
Nos quer agitando as memórias e tradições
Nos quer celebrando a vida sempre a renascer
Sempre a renascer
Sempre a renascer
Sempre a renascer

Ditirambo, Ditirambo

Dionísos nasceu de um raio
e caiu na dança de onde eu não saio
Dionísos deus dialético
Vida e Morte
Ressureição
Bromio Baco Rumor
Vinho e Teatro
Liberação
Dionísos requebra sua razão
E faz acender a sua paixão
Pisando o Vinho dessa Nação
Pisando o Vinho Dessa Nação

Ditirambo, Ditirambo

(Universidade Popular de Arte e Ciência)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Espelho, espelho meu...

"Estou aqui porque, finalmente, não há mais como refugiar-me de mim mesmo.
Até que me confronte nos olhos e no coração dos outros, estarei fugindo.
Até que sofra no partilhar dos meus segredos, não me libertarei deles.
Temeroso de ser conhecido, não poderei me conhecer e nem aos outros. Estarei só.

Onde, se não em meus companheiros, poderei encontrar este espelho?
Nele posso enfim revelar-me claramente para mim mesmo.
Não, como o gigante dos meus sonhos, nem como o anão dos meus temores,
mas como alguém, parte de um todo, com a sua contribuição para o propósito comum.

Sobre este fundamento posso me enraizar e crescer;
Não mais solitário como na morte, porém vivo,
para mim mesmo e também para o outro."

De um lado esse carnaval...

...De outro a fome total.


16 de fevereiro de 2015, Aterro do Flamengo, Carnaval, Bloco do Sargento Pimenta, "Aterro lota" (segundo uma pesquisa na internet). Então, seguimos em direção ao bloco, a princípio algumas pessoas caminhando no mesmo sentido, encontramos um grupo com uns instrumentos mas associando que o "Aterro lota", tivemos certeza de que não era aquele bloco que estávamos procurando, seguimos em direção ao pequeno fluxo de pessoas e conforme mais andávamos mais gente ia se aglomerando e nada do bloco. No caminho pessoas felizes, pessoas se divertindo, alegres, fantasiadas, crianças e alguns já bêbados largados pelas calçadas. Um silêncio imperava entre eu e meus amigos, éramos três. Até que um comentou: "Será que essas crianças acham tudo isso (o carnaval) o máximo e se imaginam "grandes" fazendo o mesmo?". Eu respondi que elas estavam apenas sendo crianças no mundo das fantasias e que isso seria a última coisa que elas pensariam naquele momento.

Chegando próximo ao bloco, a multidão foi crescendo, então chegamos a conclusão de que realmente aquele lugar estava lotado. Enfim chegamos ao tal do bloco que parecia mais uma micareta, em todos os sentidos. Assim que eu cheguei a vontade foi de ir embora, lugar cheio, barulhento, muitas pessoas ocupando o mesmo espaço, bêbados... me concentrei com o intuito de achar algum motivo para permanecer ali, e me lembrei de um texto de Nietzsche que fala sobre o apaixonado solitário, e uns vídeos do Clóvis de Barros Filho, que fala sobre a necessidade que as pessoas tem de todo esse barulho que elas produzem, naquele momento vi no olhar de cada um a carência, o medo, o desespero de uma solidão, foi a única conclusão que eu consegui chegar sobre as minhas reflexões, o que teria de interessante estar em um lugar, barulhento onde a comunicação é impraticável, mal dava para se ouvir a música, mal dava para andar e respirar, e a maioria estava bebendo e a bebida deixa a pessoa meio inconsciente, não faz sentido, o único sentido que fez foi que aquelas pessoas estavam fazendo isso parar fugirem delas mesmas e tentando se encontrar de alguma forma naquela multidão. Nesse momento chegou um menino e foi "conversar" com a minha amiga, primeiro ele se apresentou, beleza, depois ele deu u beijo no rosto dela, tentou dar um selinho, ela desviou e ficaram falando, até eu perceber que ele começou a encostá-la (ele estava visivelmente alcoolizado), nisso ele já tinha cumprimentado ela umas três vezes na expectativa de um beijo, quando eu me meti e dispensei o maluco, achei um abuso. Não demorou muito ele estava tentando a mesma estratégia com todas as meninas que estavam ao redor. Ele apenas confirmou o que eu estava a refletir antes dele aparecer.

Sentamos logo abaixo, quando eu resolvi ir embora. No caminho de volta foi quando tudo aconteceu, o silêncio entre nós três continuava, até que de repente um menino forte, moreno, apenas de bermuda deitado no chão com um policial civil em cima dele o ameaçando e mandando ele botar pra fora, "cospe logo senão...", por um breve instante achei aquela cena um tanto cômica (porque era um menino contra quatro policiais, e mesmo assim ele só se rendeu porque apanhou de cassetete)como diz Criolê "cada cassetete é um chicote para um tronco", tinha um policial em cima do menino e um do lado tentando sustentar ele preso no chão e mais duas policias femininas chamando reforço, era apenas um menino, e lá estava ele apanhando, até que quando provavelmente cansou de apanhar ele resolveu botar para fora o cordão de ouro que escondia embaixo da língua, logo depois mais porrada e os policiais arrancam outro de dentro da boca dele, como ele conseguiu fazer isso eu não tenho a menor ideia, mas minha visão captou isso com um zoom mais potente que qualquer câmera profissional, quando ele levantou a marca nas costas dos cassetetes. E eu comecei a falar, sem querer, em voz alta, "eu sei que ele errou mas não precisa bater no maluco, olha a covardia", (carnaval no RJ isso é certo de acontecer, daí colocam uns policiais completamente despreparados, e descem o cassete no garoto), o silêncio entre os três foi quebrado, um concordava com o policial, "tem que bater mesmo, e quem perdeu o cordão, ele não tem direito de roubar ninguém", eu sendo contra "então vamos na raiz dos problemas sociais que assolam nosso país...", no meio de uma discussão onde ninguém ouvia ninguém, um catador de latas aparece do nada e diz, "não tenha pena dele não, olha quem ele está roubando, eu não roubo ninguém, estou aqui trabalhando dignamente, catando as latinhas, porque ele não faz isso também? Porque se eu fosse roubar eu roubaria a Petrobrás, o governo, roubaria no lugar certo, roubaria quem nos rouba todos os dias". Voltamos ao silêncio.

Alguns metros depois, dois carros da polícia civil, dois meninos (bêbados e brancos) algemados do lado da viatura com o policial abraçando eles, era uma pose para uma foto. Como assim? Sim, é carnaval no RJ. Era brincadeira, era carnaval, essa foto vai correr pela internet e nada vai acontecer, nem com esses meninos, nem com o policial. A reflexão que veio na hora foi, "qual é a moral que eles têm?". Mais a frente, passa um menino com porte físico bem definido correndo de bermuda vermelha e sem camisa, atrás dele sai a viatura, desesperados e despreparados, saíram cantando pneu e apontando a arma pra quem quer que estivesse ali presente. Se pegaram o rapaz? Provavelmente não. O cara está muito mais preparado para guerra do que eles. Eles (os policiais) estão preparados apenas para selfies carnavalescas.

Passo por uma menina(criança) sentada na calçada, com a cabeça entre as mãos, parecia triste, pensei em falar com ela, me comoveu bastante, quando olhei para frente dela e vi um carrinho enorme virado e lotado de latinhas, recuei. Ela estava cansada. Era carnaval. Ela, uma criança. O que é ser criança? O que é ser criança no carnaval? Lembrei daquelas crianças que vi assim que cheguei, lembrei do que falei e pensei "elas estão sendo apenas crianças", o que definimos por isso? Porque essa menina não estava apenas sendo criança? Meu carnaval acabou com aquela imagem. Os contrastes de um carnaval.


"Por acreditar no papel moralizador da escola, e qual o papel moralizador da escola? É dar aos alunos condições de livre e soberanamente discernir sobre o melhor comportamento, e não fazê-los acreditar que só devem se comportar bem quando estão submetidos à uma repressão explícita do poder de polícia. Então espero que você tenha entendido que nós ainda temos uma chance de voltar a moralizar a nossa sociedade, é quando os radares se tornam desnecessários, é quando a polícia se torna desnecessária, porque as pessoas na hora de decidir na moral e livremente sobre como devem agir, terão discernimento para fazê-lo no sentido da melhor ordem possível, da melhor convivência possível, da melhor harmonia entre as pretensões de cada um. Na falta disso, na falta desse discernimento, na falta de moral, aí é preciso segurar na porrada mesmo, aí radar, cassetete, bomba de gás lacrimogêneo... Uma sociedade militarizada para quando a moral não dá conta. Para quando a moral é fraca. A moral e a força, são como dois lados de uma gangorra, se uma está em cima é porque o outro é desnecessário. Na falta de moral nada melhor que reprimir progressivamente."

Clóvis de Barros Filho

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Commedia dell'Arte

Menotti Del Picchia
Máscaras


PERSONAGENS:

Arlequim : Um desejo
Pierrot : Um Sonho
Colombina: A Mulher

Em qualquer terra em que os homens amem.
Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
Na vida.

BEIJO DE ARLEQUIM

I

O crescente cintila como uma cimitarra. Lírios longos, grandes mãos
brancas estendidas para o luar, bracejam nas pontas das hastes. Uma
balaustrada. Uma bandurra. Um Arlequim. Um Pierrot E, sobre as
máscaras e os lírios, a volúpia da noite, cheia de arrepios e de aromas.


ARLEQUIM diz:

Foi assim: deslumbrava a fidalga beleza da turba nos salões da Senhora Duquesa.
Um cravo, em tom menor, numa voz quase humana, tecia o madrigal de uma antiga pavana. Eu descera ao jardim. Cheirava
a heliotrópio e vi, como quem vê num vago sonho de ópio, uma loura mulher...

PIERROT

Loura?

ARLEQUIM


Como as espigas...
Como os raios de sol e as moedas antigas...Notei-lhe, sob o luar, a cabeleira crespa,
anca em forma de lira e a cintura de vespa, um cravo no listão que o seio lhe bifurca,
pezinhos de mousmé, olhos grandes, de turca... A boca, onde o sorriso era como uma abelha, recendia tal qual uma
rosa vermelha.

PIERROT

Falaste-lhe?

ARLEQUIM

Falei...

PIERROT

E a voz?

ARLEQUIM

Vaga e fugace.
Tinha a voz de uma flor, se acaso a flor falasse...

PIERROT

E depois?

ARLEQUIM

Eu fiquei, sob a noite estrelada, decidido a ousar tudo e não ousando nada...
Vinha dela, pelo ar, espiritualizado numa onda volúpia, um cheiro de pecado...
Tinha a fascinação satânica, envolvente, que tem por um batráquio o olhar duma serpente... e fiquei, mudo e só,
deslumbrado e tristonho, sentindo que era real o que eu julgava um sonho! Em redor o jardim recendia.
Umas poucas
tulipas cor de sangue, abertas como bocas, pela voz do perfume insinuavam perfídias...

Tremia de pudor a carne das orquídeas... Os lírios senhoreais, esbeltos como galgos,
abriram para o céu cinco dedos fidalgos fugindo à mão floral do cálix longo e fino.
Um repuxo cantava assim como um violino e, orquestrando pelo ar as harmonias rotas, desmanchava-se em sons, ao
desfazer-se em gotas! Entre a noite e a mulher, eu trêmulo hesitava: se a noite seduzia, a mulher deslumbrava!
Dei uns passos
Ao ruído agitou-se assustada. Viu-me...

PIERROT

E ela que fez?

ARLEQUIM

Deu uma gargalhada.

PIERROT

Por que?

ARLEQUIM

Sei lá! Mulher...Talvez porque ela achasse ridículo Arlequim com ar de Lovelace...
Aconcheguei-me mais: “Deus a guarde, Senhora!”
- Obrigada. Quem és?
- “Um arlequim que a adora!”

Vinha do seio dela, entre a renda e a miçanga, um cheiro de mulher e um cheiro de cananga. Eram os olhos seus, sob
a fronte alva e breve, como dois astros de ouro a arder num céu de neve. Mordia, por não rir, o lábio úmido e
langue, vermelho como um corte inda vertendo sangue...E falei-lhe de amor...

PIERROT

E ela?

ARLEQUIM

Ficou calada...
Meu amor disse tudo, ela não disse nada, mas ouviu , com prazer, a frase que renova
no amor que é sempre velho, a emoção sempre nova!

PIERROT

Que lhe disseste enfim?

ARLEQUIM

O ardor do meu desejo,
a glória de arrancar dos seus lábios um beijo, a volúpia infernal dos seus olhos
devassos, o prazer de a estreitar , nervoso, nos meus braços, de sentir a lascívia heril dos seus meneios, esmagar
no meu peito a carne dos seus seios!

PIERROT, assustado:

Tu ousaste demais...

ARLEQUIM, cínico:

Ingênuo! A mulher bela
adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o homem enamorado se arrepende, afinal, de não
ter tudo ousado.

PIERROT

E ela?

ARLEQUIM

Vinha pelo ar, dos zéfiros no adejo, um perfume de amor lascivo como um beijo, como se o mundo em flor
vibrasse, quente e vivo, no erotismo triunfal de um amor coletivo!


PIERROT, fremindo:

E ela?

ARLEQUIM

Ansiando, ouviu toda essa paixão louca, levantou-se...

PIERROT

Depois?

ARLEQUIM , triunfante:

Deu-me um beijo na boca!

Um silêncio cheio de frêmito. Os lírios tremem. Pierrot
olha o crescente. Arlequim dá um passo, vê a brandura,
toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído,
as cordas que gemem.

ARLEQUIM

Linda viola.

PIERROT, alheado:

Bom som...

ARLEQUIM

Que musicais surpresas não encerra a mudez
destas cordas retesas...

Confidencial a Pierrot:

Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher, diferença nenhuma. Questão de dedilhar,
com certa audácia e calma, numa...estas cordas de aço, e na outra...as cordas d’alma!

Suavemente, exaltando-se:

O beijo da mulher! Ó sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na boca... No contado do lábio, onde a emoção
acorda, sentir outro vibrar, como vibra uma corda... À vaga orquestração da frase que sussurra ver um corpo
fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música que canta no gemido de amor que morre na
garganta...Colar o lábio ardente à flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos subindo...até
alcançar a boca e escutar, num arquejo, o universo parar na síncope de um beijo!

...................................................................................................................
......................

Eis toda a arte de amar! Eis, Pierrot fantasista, a suprema criação da minha alma de artista. Compreendes?

PIERROT, ansiado:

E a mulher?

ARLEQUIM, lugubremente:

A mulher? É verdade...
Levou naquele beijo a minha mocidade.

PIERROT

E agora? Onde ela está?

ARLEQUIM, ironicamente místico:

No meu lábio, no ardor desse beijo, que é todo um romance de amor!

Seduzido pela angústia da saudade:

No temor de pedi-lo e na glória de tê-lo...
No gozo de prová-lo e na dor de perdê-lo...
No contato desfeito e no rumor já mudo...
No prazer que passou...Nesse nada que é tudo:
O passado!... a lembrança... a saudade... o desejo...

Balbuciando:

Um jardim... Um repuxo...Uma mulher... Um beijo....


(Longo silêncio cheio de evocação e de cismas).

PIERROT, ingenuamente:

É audaciosa demais a tua história...






ARLEQUIM, ríspido:

Enfim,
um Arlequim, Pierrot, é sempre um Arlequim. Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo
de mulher!


O SONHO DE PIERROT


II


PIERROT

Eu também, Arlequim, nesta vida ilusória, como todos Pierrots, eu tenho uma história, vaga, talvez banal, mas
triste como um cântico...

ARLEQUIM, sarcástico:

Não compreendo um Pierrot que não seja romântico, branco como o marfim, magro como um caniço, enchendo o mundo de
ais, sem nunca passar disso.

PIERROT

Debochado Arlequim!
ARLEQUIM

Branco Pierrot tristonho...


PIERROT

Teu amor é lascívia!

ARLEQUIM

E o teu amor é sonho...

PIERROT

É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual,
das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida
aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim. , misticismo tristonho, que transforma a mulher na
incerteza de um sonho....


ARLEQUIM, escarninho:

Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots?

PIERROT

Não! A todos os que amam!
Aos que têm esse dom de encontrar a delícia na intenção da carícia e nunca na carícia...Aos que sabem, como eu,
ver que no céu reflete a curva do crescente, um vulto de Pierrette...

ARLEQUIM, zombeteiro:

Eterno sonhador! Tu crês que vive a esmo tudo aquilo que sai de dentro de ti mesmo. Vês, se fitas o céus, garota e
seminua, Colombina sentada entre os cornos da lua...Quanta vezes não viste o seu olhar abstrato nos fosfóreos
vitrais das pupilas de um gato?

PIERROT

Essas frases cruéis, que mordem como dentes, só mostram, Arlequim, que somos diferentes. Mas minha alma, afinal, é
compassiva e boa: não compreendes Pierrot. E Pierrot te perdoa...

ARLEQUIM

Tua história, vai lá! Senta-te nesse banco. Conta-me: “Era uma vez um Pierrot muito branco...”
A história de um Pierrot sempre nisso consiste... Começa.

PIERROT narrando:

“Era uma vez... um Pierrot... muito triste... “

Uma voz, na distância, corta, argentina, a narração de Pierrot.

A VOZ

Foi um moço audaz, que vejo
no meu sonho claro e doce,
O amor que primeiro amei..
Abraçou-me: deu-me um beijo
e, depois, lento, afastou-se,
e nunca mais o encontrei.



Num ser pálido e doente
resume-se o que consiste
o segundo amor que amei.
Ele olhou-me tristemente...
Eu olhei-o muito triste...
E nunca mais o encontrei!

Esse amor deu-me o desejo
daquele beijo encontrar.
Mas nunca, reunidas, vejo,
a volúpia desse beijo,
e a tristeza desse olhar...

A voz agoniza nos ecos. Pierrot e Arlequim tendem o ouvido procurando no ar mais uma estrofe.

ARLEQUIM

Essa voz...

PIERROT

Essa voz...

ARLEQUIM

Só de ouvi-la estremeço...

PIERROT

Eu conheço essa voz!

ARLEQUIM

Essa voz eu conheço...

Um sopro de brisa arrepia as plantas.

PIERROT
Escuta...

ARLEQUIM

Escuta...


PIERROT
Ouviste?

ARLEQUIM
Um sussurro...

PIERROT

Um lamento...

ARLEQUIM

Foi o vento talvez.

PIERROT

Sim. Talvez fosse o vento.

ARLEQUIM

Conta a história, Pierrot.

Pierrot continuando:

Numa noite divina
como tu, num jardim, encontrei Colombina. Loira como um trigal e branca como a lua.

ARLEQUIM

Era loira também?

PIERROT

Tão loira como a tua...
Eu descera ao jardim quebrado de fadiga. Dançavam no salão...

ARLEQUIM, interrompendo:

... uma pavana antiga,
e notaste ao luar a cabeleira crespa...

PIERROT

... a anca em forma de lira...




ARLEQUIM

... e a cintura de vespa!

PIERROT

Mãos mimosas, liriais...

ARLEQUIM

Em minúcias te expandes!

PIERROT
Um pé muito pequeno...

ARLEQUIM

Uns olhos muito grandes!
Uma mulher igual à que encontrei na vida?

PIERROT, ofendido:

Enganas-te, Arlequim, nem mesmo parecida!
Era tal a expressão do seu olhar profundo,
que não pode existir outro igual neste mundo!
Felinamente ardia a íris verdoenga e dúbia,
como o sinistro olhar de uma pantera núbia.

Esses olhos fatais lembravam traiçoeiras
feras, armando ardis nos fojos das olheiras!
Tão vivos que, Arlequim, desvairado, os supus
duas bocas de treva e erguer brados de luz!
Tripudiavam o bem e o mal nos seus refolhos.

ARLECRIM, cismando:

Essas coisas também ardiam nos seus olhos...

PIERROT

Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo
eu tinha a sensação de estar sobre um abismo.
Não sei porque o olhar dessa estranha criatura
era cheio de horror...e cheio de doçura!
Eu desejava arder nessas chamas inquietas...


ARLEQUIM

Tendo o fim dos Pierrots?

PIERROT

Tendo o fim dos Poetas!
Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coração batendo...

ARLEQUIM

E beijaste-lhe a boca.

PIERROT, cismarento:

Não...Para que beijar? Para que ver, tristonho, no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho... Beijo dado,
Arlequim, tem amargos ressábios...
Sempre o beijo melhor é o que fica nos lábios,
esse beijo que morre assim como um gemido,
sem ter a sensação brutal de ser colhido...

ARLEQUIM

E que disse a mulher?

PIERROT

Suspirou de desejo...

ARLEQUIM , mordaz:

Preferia, bem vês, que lhe desses um beijo!

PIERROT

Não. Ela olhou-me. Olhei... E vi que, comovida, sentiu que , nesse olhar, eu punha a minha vida...

Um silêncio cheio de angústias vagas.
Sob o luar claro as almas brancas dos
Lírios evocam fantasmas de emoções
mortas. Os espectros das memórias
parecem recolher, como numa urna invi-
sível, a saudade romântica de Pierrot...




ARLEQUIM, tristonho:
Essa história, Pierrot, é um pouco merencória...

PIERROT

A história desse olhar é toda a minha história.

ARLEQUIM
E não a viste mais?

PIERROT

Nem sei mesmo se existe...

ARLEQUIM, contendo o riso:

É de fazer chorar! Tudo isso é muito triste!

Tomando-o pelo braço, confidencialmente:

Entretanto, ouve aqui, à guisa de consolo:
diante dessa mulher...foste um Pierrot bem tolo!
Aprende, sonhador! Quando surgir o ensejo,
entre um beijo e um olhar, prefere sempre um beijo!

PIERROT, desconsolado:

Lamentas-me Arlequim?
ARLEQUIM

Tu não compreendeste: choro não ter colhido o beijo que perdeste.


O AMOR DE COLOMBINA


II

Uma voz que canta se aproxima.

A VOZ

Esse olhar deu-me o desejo
daquele beijo encontrar,
mas nunca , reunidas, vejo
a volúpia desse beijo
e a tristeza desse olhar!

PIERROT , extasiado:

Escutaste, Arlequim, que cantiga tão bela?

ARLEQUIM

Era dela esta voz?

PIERROT

Esta voz era dela...

Arlequim está imerso na sombra e um raio de luar ilumina
Pierrot. Entra Colombina trazendo uma braçada de flores.

COLOMBINA, vendo Pierrot:

Tu? Que fazes aqui?

PIERROT
Espero-te, divina...A sorte de um Pierrot é esperar Colombina!

COLOMBINA

Pela terra florida, olhos cheios de pranto, eu procurei-te muito...

PIERROT

E eu esperei-te tanto!

COLOMBINA

Onde estavas, Pierrot? Entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, dizia a cada flor:
“Mimosa flor, não viste um Pierrot muito branco...”

PIERROT

Um Pierrot muito triste...

COLOMBINA

E respondia a flor: “Sei lá... Nestas campinas passam tantos Pierrots atrás de Colombinas...” E eu seguia e
indagava: “Ó regato risonho: não viste, por acaso, o Pierrot do meu sonho? “ E o regato correndo e cantando,
dizia: “Coro e canto e não vejo” - e cantava e corria... Nos céus, ergendo o olhar, eu via, esguio e doente, o
pálido Pierrot recurvo do crescente...
Assim te procurei, entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, só porque, meu amor, uma
noite, num banco, eu encontrara olhar de um triste Pierrot branco.

PIERROT

Não! Não era um olhar! Ardia nessa chama
toda a angústia interior do meu peito que te ama
Nosso corpo é tal qual uma torre fechada
onde sonha , em seu bojo, uma alma encarcerada.
Mas se o corpo é essa torre em carne e sangue erguida,
O olhar é uma janela aberta para a vida,
e, na noite de cisma, enevoada e calma,
na janela do olhar se debruça nossa alma


COLOMBINA, languidamente abraçada a Pierrot:

Olha-me assim, Pierrot... Nada mais belo existe
que um Pierrot muito branco e um olhar muito triste...
Os teus olhos, Pierrot, são lindos como um verso.
Minh’alma é uma criança, e teus olhos um berço
com cadências de vaga e, à luz do teu olhar,
tenho ânsias de dormir, para poder sonhar!
Olha-me assim, Pierrot... Os teus olhos dardejam!
São dois lábios de luz que as pupilas me beijam...
São dois lagos azuis à luz clara do luar...
São dois raios de sol prestes a agonizar...
Olha-me assim Pierrot... Goza a felicidade
de poluir com esse olhar a minha mocidade
aberta para ti como uma grande flor,
meu amor...meu amor...meu amor...

PIERROT

Meu amor!

Colombina e Pierrot abraçam-se ternamente. Há, como
um cicio de beijos, entre os canteiros dos lírios. Arlequim,
vendo-os, sai da treva e, com voz firme, chama.

ARLEQUIM

Colombina!
COLOMBINA, voltando-se assustada:

Quem é?


ARLEQUIM

Sou alguém, cuja sina foi amar, com Pierrot, a mesma
Colombina. Alguém que, num jardim, teve o sublime ensejo de beijar-te e jamais se esquecer desse beijo!

COLOMBINA, desprendendo-se de Pierrot:

Tu, querido Arlequim!

ARLEQUIM, galanteador:

Arlequim que te adora...Que te buscava há tanto e que te encontra agora.

COLOMBINA

E procurei-te em vão, mas te esperava ainda.

ARLEQUIM a Pierrot:

Ela está mais mulher...

PIERROT num êxtase:

Ai! Ela está mais linda!

ARLEQUIM, enfatuado, a Colombina:

És linda, meu amor! Nessa formas perpassa
na cadência do Ritmo, a leveza da Graça.
Teus braços musicais, curvos como perfídia,
têm a graça sensual de uma estátua de Fídias.
Não sendo inda mulher, nem sendo mais criança,
encarnas, grande viva, a Flor de Liz de França...
Sobe da anca uma curva ondulante que chega
a teu corpo plasmar como uma ânfora grega
e é teu vulto triunfal, longo, heráldico, esgalgo,
coleante como um cisne e esbelto como um galgo!

COLOMBINA, fascinada:
Lindo!

ARLEQUIM

E não disse tudo... E não disse do riso
boêmio como ébrio e claro como um guizo.
E ainda não falei dessa voz de sereia
que, quando chora, canta, e quando ri, gorjeia...

Não falei desse olhar cheio de magnetismo,
que fulge como um astro e atrai como um abismo,
e do beijo, que como uma carícia louca...
inda canta em meu lábio e inda sinto na boca!

COLOMBINA com um voz sombria de volúpia:

Fala mais, Arlequim! Tua voz quente e langue
tem lascivo sabor de pecado e de sangue.
O venenoso amor que tua boca expele,
põe-me gritos na carne e arrepios na pele!
Fala mais, Arlequim! Quando te escuto, sinto
O desejo explodir das potências do instinto,
O brado da volúpia insopitada, a fúria,
do prazer latejando em uivos de luxúria!
Fala mais, Arlequim! Diz o ardor que enlouquece
a amada que se toca e aos poucos desfalece,
e que, cega de amor, lábio exangue, olhar pasmo,
agoniza num beijo e morre num espasmo.
Fala mais, Arlequim! Do monstruoso transporte
que, resumindo a vida, anseia pela morte,
dessa angústia fatal, que é o supremo prazer
da glória de se amar, para depois morrer!

PIERROT, num soluço:

Ai de mim!...

COLOMBINA, como desperta:

Tu Pierrot!

PIERROT, num fio de voz:

Ai de mim que, tristonho, trazia
à tua vida a oferta do meu sonho...Pouca coisa, porém... Uma alma ardente e inquieta arrastando na terra um
coração de poeta.
Na velha Ásia, a Jesus, em Belém, um Rei Mago, não tendo outro partiu através de
Cartago, atravessando a Síria, o Mar Morto infinito, a ruiva e adusta Líbia, o mudo e fulvo Egito, as várzeas de
Gisej, o Hebron fragoso e imenso, só para lhe ofertar uns grânulos de incenso... Também vim, sonhador, pela vida,
tristonho, trazer-te o meu amor no incenso do meu sonho.

COLOMBINA com ternura:

Como te amo, Pierrot...


ARLEQUIM

E a mim, cujo desejo te abriu o coração com a chave do meu beijo? A tua alma era como a Bela Adormecida: o
meu beijo a acordou para a glória da vida!

CALOMBINA fascinada:

Como te amo, Arlequim!...

PIERROT

desvairado pelo ciúme, apertando-lhe os pulsos,
numa voz estrangulada:

A incerteza que esvoaça desgraça muito mais do que a própria desgraça. Escolhe entre nós dois... Bendiremos
os fados sabendo o que é feliz, entre dois desgraçados!

ARLEQUIM

Dize: Queres-me bem?

PIERROT:

Fala: gostas de mim?

COLOMBINA, hesitante:

A Pierrot:

Eu amo-te , Pierrot...

A Arlequim:

... Desejo-te, Arlequim...

ARLEQUIM, soturnamente:

A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..

COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão:

Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós,
o coração balanço:


A Arlequim:

O teu beijo é tão quente...

A Pierrot:

O teu sonho é tão manso...

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma! Quando tenho
Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,
porque a história do amor pode escrever-se assim:

PIERROT
Um sonho de Pierrot...

ARLEQUIM

E um beijo de Arlequim!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O Apaixonado Solitário

Para um homem que viveu com um grande problema como um destino e cujos dias e noites são passados em diálogos e em resoluções solitárias, as opiniões de outrem sobre esse mesmo problema são uma espécie de zumbido do qual se defende tapando os ouvidos; ouve a respeito, quando muito, indiscrição, incompetência e indecência da parte daqueles que, a seu ver não têm direito a semelhante problema, porque não o descobriram, é nas horas em que desconfiam de si mesmo, de seu direito e de seu privilégio, que o apaixonado solitário - pois, todo filósofo é isso - deseja ouvir tudo o que foi dito ou subentendido por ocasião de seu problema; talvez perceba então que o mundo está repleto de apaixonados ciumentos como ele e que todo esse barulho, toda essa confusão, essa vida pública, todo esse desfile da política, da vida cotidiana, da feira, da "época", tudo isso parece ter sido inventado somente para permitir, ao que resta de solitários e de filósofos, dissimular-se atrás disso, no que constitui sua solidão própria; todos ocupados com uma única coisa, ciumentos de uma única coisa: Justamente seu próprio problema. "Só se pensa nisso hoje, por pouco que se pense", diz ele finalmente para si mesmo. "Tudo gira em torno desse mesmo ponto de interrogação". O que parecia ser reservado para mim é o que a época inteira ambiciona, no fundo, nada mais acontece; eu mesmo - mas o que importa minha pessoa! Nietzsche, Vontade de Potência.
"Será que o mundo é barulhento e por isso eu perdi a competência para pensar ou será que eu perdi a competência para pensar e por isso fabriquei um mundo barulhento para não ser obrigado à isso. [...] A gente não tem a oportunidade de conversar consigo mesmo, eu vejo aí, uma das razões da falência moral da nossa sociedade. Porque no final das contas o que é a moral, diferentemente do que se costuma pensar, a moral não é repressão da civilização, não é coação... a moral é a possibilidade que temos de refletir sobre a própria vida no sentido de dar a ela um caminho que nos pareça mais justo mais adequado e assim por diante. A moral é um verbo que se conjuga na primeira pessoa, é o Eu com o Eu refletindo como o Eu deve fazer para viver da melhor maneira possível. Ora, na hora que você não tem a oportunidade de pensar consigo mesmo, você não encontra as condições necessárias para o desenvolvimento desse tipo particular de atividade intelectual que é: a moral. A moral no fundo consiste na atribuição criteriosa de valor às possibilidades de vida e de conduta para identificação da conduta que vale mais." Clóvis de Barros Filho