quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

De um lado esse carnaval...

...De outro a fome total.


16 de fevereiro de 2015, Aterro do Flamengo, Carnaval, Bloco do Sargento Pimenta, "Aterro lota" (segundo uma pesquisa na internet). Então, seguimos em direção ao bloco, a princípio algumas pessoas caminhando no mesmo sentido, encontramos um grupo com uns instrumentos mas associando que o "Aterro lota", tivemos certeza de que não era aquele bloco que estávamos procurando, seguimos em direção ao pequeno fluxo de pessoas e conforme mais andávamos mais gente ia se aglomerando e nada do bloco. No caminho pessoas felizes, pessoas se divertindo, alegres, fantasiadas, crianças e alguns já bêbados largados pelas calçadas. Um silêncio imperava entre eu e meus amigos, éramos três. Até que um comentou: "Será que essas crianças acham tudo isso (o carnaval) o máximo e se imaginam "grandes" fazendo o mesmo?". Eu respondi que elas estavam apenas sendo crianças no mundo das fantasias e que isso seria a última coisa que elas pensariam naquele momento.

Chegando próximo ao bloco, a multidão foi crescendo, então chegamos a conclusão de que realmente aquele lugar estava lotado. Enfim chegamos ao tal do bloco que parecia mais uma micareta, em todos os sentidos. Assim que eu cheguei a vontade foi de ir embora, lugar cheio, barulhento, muitas pessoas ocupando o mesmo espaço, bêbados... me concentrei com o intuito de achar algum motivo para permanecer ali, e me lembrei de um texto de Nietzsche que fala sobre o apaixonado solitário, e uns vídeos do Clóvis de Barros Filho, que fala sobre a necessidade que as pessoas tem de todo esse barulho que elas produzem, naquele momento vi no olhar de cada um a carência, o medo, o desespero de uma solidão, foi a única conclusão que eu consegui chegar sobre as minhas reflexões, o que teria de interessante estar em um lugar, barulhento onde a comunicação é impraticável, mal dava para se ouvir a música, mal dava para andar e respirar, e a maioria estava bebendo e a bebida deixa a pessoa meio inconsciente, não faz sentido, o único sentido que fez foi que aquelas pessoas estavam fazendo isso parar fugirem delas mesmas e tentando se encontrar de alguma forma naquela multidão. Nesse momento chegou um menino e foi "conversar" com a minha amiga, primeiro ele se apresentou, beleza, depois ele deu u beijo no rosto dela, tentou dar um selinho, ela desviou e ficaram falando, até eu perceber que ele começou a encostá-la (ele estava visivelmente alcoolizado), nisso ele já tinha cumprimentado ela umas três vezes na expectativa de um beijo, quando eu me meti e dispensei o maluco, achei um abuso. Não demorou muito ele estava tentando a mesma estratégia com todas as meninas que estavam ao redor. Ele apenas confirmou o que eu estava a refletir antes dele aparecer.

Sentamos logo abaixo, quando eu resolvi ir embora. No caminho de volta foi quando tudo aconteceu, o silêncio entre nós três continuava, até que de repente um menino forte, moreno, apenas de bermuda deitado no chão com um policial civil em cima dele o ameaçando e mandando ele botar pra fora, "cospe logo senão...", por um breve instante achei aquela cena um tanto cômica (porque era um menino contra quatro policiais, e mesmo assim ele só se rendeu porque apanhou de cassetete)como diz Criolê "cada cassetete é um chicote para um tronco", tinha um policial em cima do menino e um do lado tentando sustentar ele preso no chão e mais duas policias femininas chamando reforço, era apenas um menino, e lá estava ele apanhando, até que quando provavelmente cansou de apanhar ele resolveu botar para fora o cordão de ouro que escondia embaixo da língua, logo depois mais porrada e os policiais arrancam outro de dentro da boca dele, como ele conseguiu fazer isso eu não tenho a menor ideia, mas minha visão captou isso com um zoom mais potente que qualquer câmera profissional, quando ele levantou a marca nas costas dos cassetetes. E eu comecei a falar, sem querer, em voz alta, "eu sei que ele errou mas não precisa bater no maluco, olha a covardia", (carnaval no RJ isso é certo de acontecer, daí colocam uns policiais completamente despreparados, e descem o cassete no garoto), o silêncio entre os três foi quebrado, um concordava com o policial, "tem que bater mesmo, e quem perdeu o cordão, ele não tem direito de roubar ninguém", eu sendo contra "então vamos na raiz dos problemas sociais que assolam nosso país...", no meio de uma discussão onde ninguém ouvia ninguém, um catador de latas aparece do nada e diz, "não tenha pena dele não, olha quem ele está roubando, eu não roubo ninguém, estou aqui trabalhando dignamente, catando as latinhas, porque ele não faz isso também? Porque se eu fosse roubar eu roubaria a Petrobrás, o governo, roubaria no lugar certo, roubaria quem nos rouba todos os dias". Voltamos ao silêncio.

Alguns metros depois, dois carros da polícia civil, dois meninos (bêbados e brancos) algemados do lado da viatura com o policial abraçando eles, era uma pose para uma foto. Como assim? Sim, é carnaval no RJ. Era brincadeira, era carnaval, essa foto vai correr pela internet e nada vai acontecer, nem com esses meninos, nem com o policial. A reflexão que veio na hora foi, "qual é a moral que eles têm?". Mais a frente, passa um menino com porte físico bem definido correndo de bermuda vermelha e sem camisa, atrás dele sai a viatura, desesperados e despreparados, saíram cantando pneu e apontando a arma pra quem quer que estivesse ali presente. Se pegaram o rapaz? Provavelmente não. O cara está muito mais preparado para guerra do que eles. Eles (os policiais) estão preparados apenas para selfies carnavalescas.

Passo por uma menina(criança) sentada na calçada, com a cabeça entre as mãos, parecia triste, pensei em falar com ela, me comoveu bastante, quando olhei para frente dela e vi um carrinho enorme virado e lotado de latinhas, recuei. Ela estava cansada. Era carnaval. Ela, uma criança. O que é ser criança? O que é ser criança no carnaval? Lembrei daquelas crianças que vi assim que cheguei, lembrei do que falei e pensei "elas estão sendo apenas crianças", o que definimos por isso? Porque essa menina não estava apenas sendo criança? Meu carnaval acabou com aquela imagem. Os contrastes de um carnaval.


"Por acreditar no papel moralizador da escola, e qual o papel moralizador da escola? É dar aos alunos condições de livre e soberanamente discernir sobre o melhor comportamento, e não fazê-los acreditar que só devem se comportar bem quando estão submetidos à uma repressão explícita do poder de polícia. Então espero que você tenha entendido que nós ainda temos uma chance de voltar a moralizar a nossa sociedade, é quando os radares se tornam desnecessários, é quando a polícia se torna desnecessária, porque as pessoas na hora de decidir na moral e livremente sobre como devem agir, terão discernimento para fazê-lo no sentido da melhor ordem possível, da melhor convivência possível, da melhor harmonia entre as pretensões de cada um. Na falta disso, na falta desse discernimento, na falta de moral, aí é preciso segurar na porrada mesmo, aí radar, cassetete, bomba de gás lacrimogêneo... Uma sociedade militarizada para quando a moral não dá conta. Para quando a moral é fraca. A moral e a força, são como dois lados de uma gangorra, se uma está em cima é porque o outro é desnecessário. Na falta de moral nada melhor que reprimir progressivamente."

Clóvis de Barros Filho

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