quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O Apaixonado Solitário

Para um homem que viveu com um grande problema como um destino e cujos dias e noites são passados em diálogos e em resoluções solitárias, as opiniões de outrem sobre esse mesmo problema são uma espécie de zumbido do qual se defende tapando os ouvidos; ouve a respeito, quando muito, indiscrição, incompetência e indecência da parte daqueles que, a seu ver não têm direito a semelhante problema, porque não o descobriram, é nas horas em que desconfiam de si mesmo, de seu direito e de seu privilégio, que o apaixonado solitário - pois, todo filósofo é isso - deseja ouvir tudo o que foi dito ou subentendido por ocasião de seu problema; talvez perceba então que o mundo está repleto de apaixonados ciumentos como ele e que todo esse barulho, toda essa confusão, essa vida pública, todo esse desfile da política, da vida cotidiana, da feira, da "época", tudo isso parece ter sido inventado somente para permitir, ao que resta de solitários e de filósofos, dissimular-se atrás disso, no que constitui sua solidão própria; todos ocupados com uma única coisa, ciumentos de uma única coisa: Justamente seu próprio problema. "Só se pensa nisso hoje, por pouco que se pense", diz ele finalmente para si mesmo. "Tudo gira em torno desse mesmo ponto de interrogação". O que parecia ser reservado para mim é o que a época inteira ambiciona, no fundo, nada mais acontece; eu mesmo - mas o que importa minha pessoa! Nietzsche, Vontade de Potência.
"Será que o mundo é barulhento e por isso eu perdi a competência para pensar ou será que eu perdi a competência para pensar e por isso fabriquei um mundo barulhento para não ser obrigado à isso. [...] A gente não tem a oportunidade de conversar consigo mesmo, eu vejo aí, uma das razões da falência moral da nossa sociedade. Porque no final das contas o que é a moral, diferentemente do que se costuma pensar, a moral não é repressão da civilização, não é coação... a moral é a possibilidade que temos de refletir sobre a própria vida no sentido de dar a ela um caminho que nos pareça mais justo mais adequado e assim por diante. A moral é um verbo que se conjuga na primeira pessoa, é o Eu com o Eu refletindo como o Eu deve fazer para viver da melhor maneira possível. Ora, na hora que você não tem a oportunidade de pensar consigo mesmo, você não encontra as condições necessárias para o desenvolvimento desse tipo particular de atividade intelectual que é: a moral. A moral no fundo consiste na atribuição criteriosa de valor às possibilidades de vida e de conduta para identificação da conduta que vale mais." Clóvis de Barros Filho

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